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domingo, 29 de janeiro de 2012

Terras Sombrias Cap. 1 – Fragmentos (Post VII)

- Você descobrirá quem nos contratou, mais cedo do que gostaria! Resmungou outro goblinóide, correndo na direção da elfa distraída. Flecha virou-se rapidamente e antes que a criatura desferisse o seu ataque, ela disparou o seu arco certeiramente. A seta disparada pela arqueira trespassou a jugular do goblinóide que caiu de joelhos ao chão. Enquanto seu companheiro se esvaia em sangue, os outros dois goblinóides restantes correram para cima de Farid, que cambaleante, tentava recuperar o equilíbrio pelo golpe letal que desferira.Foi então, que a voz fina de “Mãos Leves” se fez ouvir...
- Esta escória luta para qualquer um, Flecha. Dê-lhes carne de texugo de vez em quando e eles serão seus para sempre!
Os goblinóides bufaram enraivecidos, e voltando suas atenções para Garth, um deles gritou, apontando para o gnomo:
- Que tal carne de leprechal?
- Ouvi dizer por ai, que é muito suculenta!
Ao que o outro enfadonho ser respondeu:
- Só se for crua!
As criaturas gargalhando, correram na direção do aparentemente desarmado leprechal. Garth, sempre com aquela expressão inocente de criança, calmamente enfiou a mão em seu colete de lã de carneiro, de onde puxou duas adagas e as arremessou, num único gesto. Os goblinódes colocaram as mãos no peito e caíram com um gemido uníssono. A batalha havia terminado. Flecha guardou seu arco as costas, fazendo caretas de nojo ante aos corpos fedorentos, que cheiravam a peixe podre. Farid limpou o sangue negro do goblinóide da lâmina de seu machado, enquanto acenava a cabeça para o leprechal, em sinal de gratidão. Garth por sua vez, fitava com tristeza o corpo do goblinóide que havia matado. Eles tinham caído de bruços, com as adagas escondidas debaixo deles...
- Eu pego elas para você. Disse Flecha, preparando-se para rolar um dos corpos malcheirosos das criaturas abatidas em combate.
- Não! Eu não as quero mais. Sabe você nunca consegue se livrar do cheiro. Comentou Garth fazendo uma careta enfadonha.
Flecha concordou com o amigo e desistiu da idéia. Farid prendeu novamente seu machado e os três continuaram a percorrer o caminho. As luzes do vale ficavam mais claras à medida que a escuridão aumentava. O cheiro de fumaça de madeira no ar frio da noite trouxe pensamentos de comida calor e segurança. Os companheiros apertaram o passo. Eles não falaram nada durante um bom tempo, tanto o gnomo como a elfa, apenas ouviam o eco das palavras de Farid em suas mentes:
- “Goblinóides... No meu Vale”...
Até que o irrefreável leprechal não se agüentou e sorrindo disse:
- Esta contente de não ter impregnado suas botas, minha cara amiga?
- Claro que sim! Mas você perdeu duas belas adagas. Comentou a elfa inconsolável.
- Sem problemas belezura, não eram minhas e sim do Farid! Afirmou o sorridente leprechal, segurando firmemente seus sacos de quinquilharias.
Bastou a frase ser terminada para o gnomo disparar em uma corrida desenfreada, vale abaixo, seguido por seu furioso amigo anão e sua companheira elfa, logo atrás.
Enquanto corria, a arqueira pensava em quantas vezes havia presenciado aquela cena...
E o quanto sentia a falta de seus amigos... Um sentimento tomou conta de seu coração e o que era duvida se transformou em certeza... A partir daquele momento, a arqueira decidira nunca mais separar-se daqueles a quem considera a sua única família.
Continua...   
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segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Terras Sombrias Cap. 1 – Fragmentos (Post VI)

Miraf inclinou-se para falar com um goblinóide que se encontrava perto dele.
- Traga-me o cetro de cristal azul, se você o encontrar com eles. Disse convicto o cavaleiro na sua estranha língua.
Flecha, Farid e Garth, trocaram olhares entre si se questionando. Todos eles sabiam falar alguma coisa na língua nativa das criaturas, “Mãos ligeiras” melhor que os outros, mas ainda era muito pouco, para decifrar aquele rude dialeto...
- Se eles resistirem mate-os! Acrescentou Miraf, voltando a falar a língua comum para causar mais efeito e amedrontar os três indivíduos.
Dito isto, ele puxou as rédeas, girou sua montaria num único gesto e galopou caminho abaixo em direção á cidade que afirmou estar protegendo.
- Goblinóides; no meu Vale... Estes malditos seguidores do Clero têm muita coisa para me explicar! Esbravejou o velho anão, fazendo mão de seu machado de batalha.
Farid “Martelo de ferro” plantou seus pés firmemente no chão, balançando para frente e para trás até se sentir equilibrado e anunciou:
- Muito bem, vermes. Venham sentir a força de meu machado!
- Ouçam o que meu amigo vos fala e recuem. Disse Flecha, sacando duas cetas envenenadas de sua aljava e postando somente uma delas em seu arco.
- Nós fizemos uma longa jornada. Estamos cansados, famintos e atrasados para uma reunião com amigos que não vemos há muito tempo. Portanto, não temos nenhuma intenção de sermos presos. Complementou Flecha.
- Ou sermos mortos. Acrescentou Garth, que não havia sacado nenhuma arma, mas continuava observando os goblinóides com interesse.
Um tanto quanto surpresas, as criaturas trocaram olhares nervosos entre si. Os goblinóides estavam acostumados a incomodar fazendeiros e vendedores ambulantes, que encontravam em suas andanças, não desafiar lutadores armados e obviamente treinados. Mas seu ódio por toda e qualquer raça que não fora a sua, falou mais alto...
Apressadamente todos sacaram suas espadas longas e curvas.
- Só existe uma criatura que eu odeio mais do que um anão... E essa criatura é um goblinóide! Afirmou Farid, dando um passo a frente segurando firmemente o cabo de seu inseparável companheiro.
Um dos goblinóides mergulhou contra o anão, esperando derruba-lo. Farid girou seu machado com uma precisão mortal... E a cabeça de uma das criaturas rolou na poeira e o corpo dele se estatelou no chão, manchando-o de vermelho.
- O que vocês gosmentos estão fazendo tão longe de casa? Perguntou Flecha, esquivando habilmente a estocada desajeitada desferida por outro goblinóide.
- Então, vocês trabalham para o tal de Melgar? Disse Flecha, empurrando com uma das pernas o goblinóide para trás e o desiquilibrando. 
- Melgar? O goblinóide engasgou com a gargalhada que deu. Brandindo sua espada como um louco, ele correu para cima de Flecha.
- Aquele idiota? Ironizou o goblinóide. Nos trabalhamos para... Uargh!
A criatura empalou a si mesma em uma das setas que a arqueira elfa segurava em sua mão. O goblinóide grunhiu, depois foi escorregando devagarzinho até chegar ao chão.
- Droga! Praguejou Flecha, olhando frustrada para o goblinóide morto.
- Idiota atrapalhado! Eu não queria matá-lo, só queria descobrir quem o contratou. Ressaltou Flecha, enquanto retirava sua seta da barriga do goblinóide.
Continua...
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Terras Sombrias Cap. 1 – Fragmentos (Post V)

O brilho metálico que os olhos de Flecha tinham visto vinha das fivelas de um dos numerosos sacos presos a volta de seus ombros e de sua cintura.
Garth sorriu para eles, guardando o chifre de unicórnio, com o qual havia criado aquele som fantasmagórico. Flecha deveria tê-lo reconhecido de imediato, pois já havia visto o leprechal assustar muitos de seus atacantes com sua besta e seu chifre de unicórnio encantado, feito nas profundezas das montanhas de Sória.
Garth, repentinamente correu de encontro a seus velhos conhecidos, com os braços abertos e o coração cheio de saudades.
- Farid! Gritou o leprechal jogando os seus braços em volta do anão e o abraçando.
O anão envergonhado, respondeu ao abraço de forma relutante, depois rapidamente deu um passo para trás. Garth riu, depois levantou os olhos para a elfa e perguntou ao anão:
- Quem é esta belezura? Suas feições não me são estranhas. Espere um momento...
- Flecha! Eu não te reconheci de capote...
- Quanto tempo não te vejo, deixe–me ver, você me parece ótima!
 O pequenino estendeu os seus curtos braços...
- Não, obrigada! Recusou Flecha, rindo. Ela acenou mantendo o leprechal à distância.
- Eu prefiro que minha escarcela continue no lugar onde está.
Com um repentino olhar de espanto, Farid procurou por seus pertences...
- Seu safado! Ele rugiu e pulou sobre o leprechal, que ria. Os dois rolaram mata adentro, engalfinhados, até estatelarem-se em uma árvore.
Flecha, segurando o riso, começou a puxar Farid de cima do leprechal. Relutante ele parou e se virou alarmado. Tarde demais, ele ouviu o chacoalhar da prata das rédeas e do cabresto e o bufar de um cavalo. A elfa levou a mão a sua aljava e rapidamente sacou uma seta, mas ela já havia perdido toda e qualquer vantagem que poderia ter se estivesse alerta. Praguejando, Flecha não podia fazer nada senão ficar parada e olhar para a figura que emergia das sombras. Ela estava montada em seu cavalo, um alazão de pelos longos na perna que se movia com a cabeça baixa, como se tivesse vergonha de seu cavaleiro. Uma estranha criatura acinzentada e calva, de extensas orelhas pontiagudas, profundos olhos avermelhados, bochechas enrugadas e nariz achatado. O cavaleiro também possuía uma fétida boca, de onde saiam protuberantes presas de marfim e seu corpo era rechonchudo, porem entroncado. A criatura portava uma armadura barata e pretensiosa, que certamente fora saqueada de algum peregrino descuidado.
Um odor peculiar atingiu Flecha e ela franziu o nariz com nojo. “Goblinóide”. Seu cérebro registrou. Ela devolveu a seta a sua aljava, enquanto observava seu amigo anão dar um tremendo espirro e cair sentado sobre o leprechal.
- Cavalo! Disse Farid, espirrando novamente.
- Atrás de você... Flecha respondeu baixinho.
Farid, ouvindo o tom de alerta na voz de sua amiga, levantando-se desajeitadamente, enquanto Garth rapidamente fazia o mesmo.
O goblinóide estava sentado no cavalo com uma perna de cada lado, observando-os com um olhar desdenhoso, como se estivesse olhando para vermes em um monte de esterco.
- Vocês estão vendo rapazes, com que tipo de idiotas estamos lidando aqui no Vale da Nevoa... Disse o goblinóide, falando em língua comum com forte sotaque.
Ouviram-se risos vindos de trás das árvores. Outros cinco goblinóides, usando as mesmas vestimentas malfeitas, saíram caminhando em direção a seu líder. Eles posicionaram-se dos dois lados do cavaleiro, que agora se inclinara em sua sela.
Flecha assistia como uma espécie de fascinação horrível quando a enorme barriga da criatura engoliu o bico da sela, que encilhava seu cavalo.
- Eu sou Miraf, líder das forças de Melgar, que mantém o vale protegido de elementos indesejáveis. Vocês não têm o direito de estar andando nos limites da cidade depois do por do sol. Portanto, meus caros, vocês estão presos!
Continua...
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quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Terras Sombrias Cap. 1 - Fragmentos (Post IV)

Farid continuou caminhando com passos pesados sem responder. Por fim, alguns metros depois, de cara fechada ele disse:
- Eu nunca deveria ter ido! Afirmou Farid veementemente.
O anão levantou os olhos para a amiga, aqueles olhos quase impossíveis de se ver através daquelas sobrancelhas brancas e espessas, informando a elfa que esta parte da conversa não era bem vinda. Flecha percebeu o olhar de Farid, mas fez suas perguntas do mesmo modo, a contra gosto de seu amigo.
- Mas o que aconteceu com os Deuses anões e as histórias que nos ouvimos?
- Não eram verdadeiras. Os Deuses desapareceram 200 anos atrás durante o cataclismo. Assim disseram os anciões. Disse Farid resignado.
- Espere um momento...
Flecha levantou uma das mãos como advertência, enquanto o anão ficou imóvel.
- O que foi? Farid murmurou.
- Eu ouvi alguma coisa vinda daquele arvoredo. Flecha apontou.
Farid olhou para além das árvores, ao mesmo tempo em que sua mão procurava o machado de batalha que estava amarrado em suas costas e disse:
- Não vejo nada além da escuridão.
- Mas eu vi, há algo brilhante em meio aqueles arbustos e esta apontado para nos. Afirmou Flecha fitando o mesmo lugar onde tinha visto o tal brilho e gradualmente sua visão de elfo começou a detectar a morna aura vermelha emanada por todos os seres vivos, mas visível apenas para sua raça.
- Quem esta aí? Perguntou Flecha fazendo mão de seu arco.
Durante um bom tempo, a única resposta foi um som estranho que fez com que os pelos do pescoço da elfa se arrepiassem. Era um som oco, uma espécie de zunido que começou baixo e foi aumentando até se transformar num tom agudo, como um gemido gritado. Acompanhado o grito havia uma voz.
- Elfa andarilha, volte de onde você veio e deixe o anão para trás. Nos somos os espíritos das pobres almas que Farid “Martelo de Ferro” deixou no chão, ao relento de um campo de batalha... Chegou à hora desse anão maldito receber seu espólio, pelos corpos que empilhou e não foi capaz de beber um só gole do vinho mais barato, em nossa homenagem. Morte a este desprezível ser enfadonho!
As vozes dos espíritos aumentaram ainda mais, assim como o gemido que ressoava altivamente por boa parte da floresta, assustando os incautos animais das proximidades.
- Nos morremos, foi de vergonha, amaldiçoados por sermos mortos por um embriagado anão da montanha, que não aguentava o peso de suas próprias pernas. Afirmaram os espíritos altivamente, enquanto pareciam deslocar-se em direção do anão e sua amiga.
A barba de Farid tremia de ódio, e Flecha que tinha começado a gargalhar foi forçada a agarrar o furioso anão pelos ombros para evitar que ele disparasse de cabeça para dentro da mata e acabasse com todo e qualquer ser vivo que se opusesse entre ele e os tais espíritos vingadores.
- Malditos sejam os olhos dos elfos e maldita sejam as barbas dos anões. Disse a voz fantasmagórica sarcasticamente.
- Você não desconfiou? Perguntou Farid.
- Garth “Mãos Ligeiras”! Murmurou Flecha.
Ouve um ligeiro farfalhar nos arbustos mais baixos, então, uma figura pequena se pôs no caminho. Era um leprechal, um membro de uma raça de duendes, considerada por muitas pessoas do Vale da Nevoa, como um incomodo pior que os mosquitos. De ossatura pequena, os leprechais raramente crescem mais que 1,20m. Este leprechal em particular era quase da altura de Farid, mas sua estrutura franzina e seu perpetuo rosto de criança, exceto por seu cavanhaque, faziam com que ele parecesse menor. Ele vestia um colete de pelo de animal e uma túnica branca, com adornos vermelhos. Seus olhos azuis brilhavam cheios de malicia e alegria, seu sorriso parecia chegar ao topo de suas generosas orelhas pontudas. Ele baixou a cabeça, o que fez com que algumas mechas de seu cabelo loiro, caíssem por cima de seu nariz. Depois, lentamente ele se recompôs e não pode mais conter o riso. Gargalhando exclamou, para que todos pudessem ouvir:
- Eu sou demais!
Continua...
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Terras Sombrias Cap. 1 – Fragmentos (Post III)

Flecha e o anão viraram-se e olharam para baixo, para o vale quieto. Luzes começaram a piscar, tornando visíveis as sentinelas nas árvores. O ar da noite estava parado, calmo e doce, tingido com o cheiro de fumaça da madeira das lareiras, das casas espalhadas vale abaixo. Vez ou outra eles conseguiam ouvir o barulho lá longe de uma mãe chamando seus filhos para jantar.
- Não ouvi falar de nenhum problema no Vale da Nevoa, em minhas andanças. Disse Farid calmamente a sua bela amiga elfa.
- Então você não ouviu falar de nenhuma perseguição religiosa... Inquisidores...
A voz de Flecha soou ameaçadora vinda das profundezas de seu capuz. A voz mais grave, mais sombria do que Farid se lembrava. O anão franziu a testa. Sua amiga havia mudado nestes 10 anos. E os elfos nunca mudam!
- Inquisições! De acordo com os boatos isso atinge apenas aqueles que desafiem o novo clericato. Farid disparou de vereda.
- Eu não acredito nos Deuses dos seguidores do clero, nunca acreditei, mas não exponho minhas idéias pelas ruas. Fique calado e eles te deixam sossegado, esse é meu mote. Os seguidores de Havengard são homens pobres de espírito. E quanto a este tal de Melgar, é apenas uma maçã podre, que deve estar estragando todo o cesto. A propósito, você encontrou o que procurava?
- Algum sinal dos antigos e verdadeiros deuses anões? Ou a paz de espírito de que tanto falava? Perguntou Flecha, curiosa em saber dos dogmas de seu amigo.
- Eu buscava os dois. A respeito de qual dos dois você quer saber? Interrogou Farid.
- Bem, eu achei que um vinha junto com o outro... Retrucou Flecha.
Farid girou o pedaço de madeira que estava em suas mãos, ainda insatisfeito com suas proporções, no entanto resolveu guarda-la.
- Nós vamos ficar aqui a noite inteira sentindo o cheiro da comida, ou vamos para a cidade jantar? Desconversou o anão, irrequieto.
- É melhor nós irmos então. Flecha acenou com um gesto.
Juntos, os dois começaram o trajeto, mas as longas pernas de Flecha forçavam o anão a dar dois passos para cada um dela. E embora já fizesse muitos anos que eles tinham viajado juntos, Flecha diminuiu inconscientemente seu ritmo, enquanto Farid apressou inconscientemente o dele.
- E você menina, foi bem sucedida em sua jornada? Indagou o anão.
- Nada. Como havia descoberto muito tempo atrás, os únicos sacerdotes que existem neste mundo servem falsos Deuses. Eu ouvi histórias de curas, mas tudo não passava de truques. Felizmente, nosso amigo Dante me ensinou o que deveria olhar... Respondeu Flecha, afivelando seu cinturão, uma casa a menos.
- Dante! Disse Farid ofegante.
- Aquele mago branquelo e magricela. Ele próprio é mais do que meio charlatão. Sempre reclamando e resmungando e metendo aquele nariz enorme onde não é chamado. Se não fosse pelo cuidado que o irmão tem com ele, alguém já teria dado um fim a seus feitiços há muito tempo.
Flecha estava feliz pelo fato do capuz esconder seu sorriso.
- Acho que aquele jovem era um mago melhor do que você quer admitir e você tem de convir, que ele trabalhou duro e sem descanso para ajudar aqueles que foram enganados pelos falsos sacerdotes, como eu. Ela suspirou.
- Pelo que você sem duvida recebeu poucos agradecimentos. Rebateu o anão.
- Pouquíssimos eu diria. Ironizou Flecha, com um meio sorriso em seus lábios.
- Infelizmente meu amigo, as pessoas querem acreditar em alguma coisa, mesmo que lá no fundo elas saibam que não é verdade. Mas e você, “Martelo de Ferro”, me conte como foi sua viagem para a sua terra natal? Questionou curiosa a elfa.
Continua...
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terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Terras Sombrias Cap. 1 – Fragmentos (Post II)

A voz soou familiar, a primeira voz familiar que ele escutava em muito tempo, embora não soubesse dizer de quem era.
Farid apertou os olhos contra o sol que se punha sobre as enormes árvores que o cercavam. Ele achou que tinha visto a silhueta de uma formosa mulher, correndo caminho acima. De pé, Farid colocou-se a sombra de um alto pinheiro para melhor observar quem proferia tais palavras. O caminhar da mulher era marcado por uma graça elegante e a rigidez de seus músculos definitivamente não eram humanos. Tudo que o anão conseguia ver eram longas tranças douradas saídas de um capuz verde e curvas capaz de deixar qualquer anão com as barbas de molho. Ela trazia um arco longo pendurado em seu ombro e uma aljava repleta de setas venenosas, devidamente atreladas a suas costas. Vestindo uma roupa de pelica, cuidadosamente trabalhada com desenhos intrincados que somente os mais notáveis elfos poderiam vestir, no entanto nenhum elfo do Vale da Nevoa, poderia proferir tal afirmação, de modo tão insolente... Nenhum elfo despeitado ousaria a tal ponto, nenhum exceto... 
- Flecha? Disse Farid de modo hesitante, enquanto a mulher se aproximava.
- A própria, baixinho!
O rosto atraente da recém chegada se abriu num enorme sorriso. Ela manteve os braços abertos, e antes que o anão pudesse para-la, agarrou Farid em um abraço que o levantou do solo. O anão apertou sua velha amiga contra si durante um breve momento depois, lembrando-se de sua dignidade, debateu-se e se livrou do abraço da elfa.
- Bem, percebo que você não aprendeu boas maneiras em 10 anos. Resmungou o anão.
- Continua não respeitando a minha idade nem o meu posto. Erguer-me como um saco de batatas, quanta insolência. Farid olhou estrada abaixo.
- Espero que ninguém conhecido tenha nos visto. Comentou o anão.
- Eu duvido que exista muita gente que se lembre de nós. Disse Flecha fitando os olhos do amigo troncudo carinhosamente.
- O tempo não passa para nós, velho anão, como passa para os humanos. Dez anos são um longo tempo para eles, um curto momento para nós. Dito isto ele sorriu dizendo: Você não mudou nada menina!
Farid pegou sua madeira do chão e voltou a sentar-se na rocha, tornando a esculpi-la.  Ele franziu a testa para Flecha e interpelou:
- Por que este capote? Não acha uma afronta aos Deuses esconder um rosto tão belo?
Flecha alisou suas longas tranças douradas, e descobriu por completo o seu rosto.
- Eu estive em terras que não eram amistosas, com pessoas de sangue élfico.
Por isso o capote... Ela disse com uma ironia meio amarga.
- Ajudou muito a esconder a minha origem e desde então, adotei a vestimenta como parte de meu vestuário. Complementou a elfa.
Farid grunhiu. Ele sabia que aquela não era a verdade completa. Embora odiasse matar, Flecha não era de se esconder de uma boa briga por trás de um capote. Cavacos de madeira voavam e se acumulavam pelo chão.
-Escute menina, estive em muitos lugares. Terras que não eram amistosas com qualquer um, de qualquer tipo de sangue. Farid virou a madeira em sua mão, examinando-a.
- Mas nós estamos em casa agora. Tudo isso ficou para trás.
- Não pelo que eu tenho escutado. Disse Flecha, cobrindo novamente o seu rosto com o capuz e olhando desconfiada para os lados.
- Os seguidores de Havengard, o teocrata, indicaram um homem chamado Melgar para governar junto ao clericato e ele transformou nossa cidade em um viveiro de fanáticos com sua nova religião. Eu mesmo pude comprovar a fúria daqueles que se auto-proclamam aos quatro ventos de “os fervorosos”, ao queimarem em praça publica um “herege”, sem a menor piedade. Contou a elfa, estarrecida. 
Continua... 
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segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Terras Sombrias Cap. 1 – Fragmentos (Post I)

Movendo-se vagarosamente pela densa floresta que cobre o Condado das Brumas, uma solitária figura regressa de sua longa jornada. Suas vestes empoeiradas e suas feições abatidas denotam o quanto pode ser austera uma procura por seu autoconhecimento. Entretanto, os percalços que o destino lhe impôs ao passar dos anos, bem como suas cicatrizes de batalha, tornaram este individuo um ser mais forte, cuja alcunha que lhe foi conferida, retrata em palavras apenas o que este homem deixou transparecer.
Aqueles que o conhecem, chamam-no de Farid “Martelo de Ferro”.
E sua caminhada esta prestes a se encerrar...
Cansado da viagem, Farid “Martelo de Ferro” desabou sobre uma rocha coberta de musgo. Seus velhos ossos de anão o haviam suportado por tempo suficiente e não estavam dispostos a continuar sem se queixarem, pela carga trazida de longa data.
- Eu nunca deveria ter partido. Este é o meu lugar e aqui quero estar até o fim de meus dias. Resmungou Farid do alto de uma montanha, a última fronteira que o separa do Vale da Nevoa. Uma hospitaleira cidadezinha, que o acolhera há muito tempo atrás. 
Ele falou alto, embora não houvesse sinal de outro ser vivo nas redondezas, longos anos vagando solitário tinham levado o anão a adquirir o estranho habito de falar consigo mesmo, assim como quem fala com seu amigo imaginário.
Batendo as duas mãos na enorme pedra, Farid “Martelo de Ferro” esbravejou:
- E que os Deuses me amaldiçoem se eu partir novamente!
Aquecida pelo sol da tarde, aquela rocha transmitia uma sensação de conforto para o velho anão que tinha caminhado o dia inteiro, no frígido ar do outono. Farid relaxou e deixou o calor do entardecer penetrar em seus ossos, o mesmo calor que por muito tempo aquecera os seus pensamentos e agora aquece a sua alma, pois ele finalmente se sente no aprazível aconchego de seu lar.  
Olhando a sua volta, ele procura paisagens familiares, como a formação rochosa em forma de concha, que por muitas vezes o abrigara nas frias noites intempestivas de inverno. Enquanto sentava e descansava, Farid pegou um bloco de madeira e uma adaga brilhante extremamente afiada de seu alforje, suas mãos moviam-se inconscientemente... Desde os tempos mais remotos, seu povo sempre teve a necessidade de dar a forma que eles desejavam, para àquilo que não possuía forma alguma. Ele mesmo tinha sido um hábil ferreiro renomado antes de se aposentar, há alguns anos... Ele colocou sua faca na madeira, depois suas mãos permaneceram paradas, pois a atenção de Farid havia sido atraída pela fumaça que saia das chaminés das casas escondidas no vale logo abaixo.
- O fogo da minha própria casa apagou-se. Disse Farid suavemente. Ele balançou a cabeça, com raiva por seu sentimentalismo e começou a cortar a madeira com demasiada violência. Resmungando altivamente:
- Minha casa ficou vazia... É provável que o telhado tenha goteiras e que a mobília tenha sido arruinada. Com um pouco de sorte, talvez esteja somente infestada por aqueles malditos roedores mal cheirosos.
Busca estúpida. Esta foi à coisa mais idiota que eu já fiz. Depois de 145 anos, eu deveria ter aprendido!
- Você nunca aprenderá anão, uma voz distante respondeu-lhe.
- Nem que você viva 245 anos.
A mão do anão deixou a madeira cair, depois se moveu com uma calma segurança inigualável, da adaga para o cabo do machado enquanto ele observava avidamente cada centímetro da floresta...
Continua...
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